Quarta-feira, 14 de dezembro.
Uma mulher chuta e atira violentamente seu Yorkshire no chão. As atrocidades persistem. No mesmo local há uma criança de 2 anos. Alguém filma tudo e publica o vídeo no Youtube. Rapidamente o caso se espalha.
Quinta-feira, 15 de dezembro.
Circularam comentários por toda web. Todos se mostraram indignados. Não demorou muito para aparecer os dados da agressora: Camila Correa, uma enfermeira que mora na cidade de Formosa, interior de Goiás. Esposa de um médico e mãe de uma menina de 2 anos.
****
Antes de parar na internet, o vídeo chegou a ser entregue a uma delegacia – diferente do que se pensava. Carlos Firmino Dantas, delegado responsável pelo caso, disse à imprensa que abriu um inquérito no dia 21 de novembro, quando recebeu uma denúncia anônima e uma cópia com vídeo.
A repercussão do caso fez com que a denúncia deixasse de ser anônima. O autor das imagens chama-se Claudemir Rodrigues Maciel. Ele estava hospedado na casa da vizinha da enfermeira, Vera Lúcia da Silva, que levou o vídeo para a polícia.
O R7, portal de notícias da Rede Record, chegou a publicar que Vera Lúcia e suas filhas chamaram a polícia e os bombeiros para tentar salvar o cachorro. Porém, o animal foi encontrado morto no gramado do prédio. De acordo com a reportagem, existe um vídeo não divulgado que mostram essas cenas.
Os fatos fizeram especulações caírem por terra. “Realmente à primeira vista, quando se sabe de uma atrocidade destas a primeira pergunta que fazemos é: ‘Por que filmou e não denunciou? ’, pois saber de um crime e não denunciar é uma ação muito grave, ainda mais quando envolve a vida de um inocente e na frente de uma criança”, explicou Denise Valente, advogada ligada a causa animal, que confessou não ter arrumado coragem para ver o vídeo na época.
“Mas vi no Jornal Hoje, da Rede Globo, que esse fato aconteceu há cerca de um mês e que a pessoa que fez o vídeo entregou uma copia dele sim para a polícia e que o caso está sendo investigado”, conta a advogada.
O caso causou comoção internacional. A 1° DP de Formosa chegou a receber cerca de 1000 mensagens de países como Canadá, Itália, Alemanha e Estados Unidos – a informação é do G1. No Brasil, uma petição online, que pedia a prisão de Camila, teve mais de 300 mil assinaturas.
Animais são mortos todos os dias pela indústria da carne e ninguém parece se importar. O que fez tantas pessoas se comoverem com o assassinato da yorkshire? Culturalmente, nos é ensinado que o cachorro é o melhor amigo do homem. Atrocidades praticadas contra esses animais revoltam as pessoas.
“O ocorrido foi com uma espécie animal de convívio estreito com o ser humano, por isso menos coisificado”, diz Nina Rosa Jacob, ativista e presidente do Instituto Nina Rosa. “Gostaria de lembrar das outras tantas espécies animais de convívio menos estreito com os humanos que são diariamente assassinadas em matadouros, aos milhares, cujos mandantes do crime são em grande parte esses mesmo seres humanos que se chocam com o crime contra a yorkshire. Galinhas, perús, bois, vacas, porcos, peixes são cruelmente assassinados sem dó nem piedade, para repor o "produto" cada vez que alguém compra ou consome a carne de um desses animais”.
Se o julgamento de Camila estivesse nas mãos do povo, ela estaria perdida. Muitos a condenam sem dó. Mas, ao contrário do que desejavam, ela não terá seu registro de enfermeira cassado e nem será presa. Sua pena exige o pagamento de cestas básicas ou a prestação de serviço à comunidade e uma multa de R$ 3 mil, aplicada pelo IBAMA. Isso porque a enfermeira colaborou com as investigações, foi qualificada como “tranquila” pelos vizinhos e porque nossas leis ainda são pouco rigorosas com quem maltrata animais.
“Acredito que essa é uma pena muito branda. O assassinato de um animal e de um humano, na minha opinião, devem ter a mesma punição, pois têm igual gravidade. No caso de animais, ainda é acrescida a covardia, pois assim como as crianças, os animais não têm como se defender”, opinou Nina Rosa.
“Com relação a multas, não creio que elas resolvam; e quando as há, nunca vão para algum fundo que vá propiciar melhorias na vida de algum outro animal. Em geral vão para um fundo perdido... Sugiro que seja criado um fundo destinado às organizações de proteção animal que estão fazendo há anos o trabalho do Estado, e pagando para trabalhar.”, acrescenta a ativista.
“A multa pune economicamente. A colaboração com as investigações, vejo como uma consequência natural do que foi registrado pelo vídeo. Colaborando ou não, não há como questionar fatos e nem diminuir a gravidade do que fez. Se ela e tantos outros que cometem crimes, têm possibilidade de pagar multa ou se o valor estipulado não lhes fizer falta, o resultado de buscar uma mudança de atitudes do infrator, quanto a não praticar mais o delito pelo qual foi punido ou quaisquer outros, é questionável. Não vejo como forma absoluta para impedir novos atos de violência”, avalia a advogada ligada a causal animal Cristina Greco.






0 comentários:
Postar um comentário